(1822) BEETHOVEN Sonata n. 32

Compositor: Ludwig van Beethoven
Número de catálogo: Op. 111
Data da composição: 1821 até 13 de janeiro de 1822
Estréia: [não se sabe]

Duração: de 25 a 30 minutos
Efetivo: piano

Beethoven cumpria encomenda a seu editor Schlesinger de terminar 3 Sonatas para piano, e em paralelo dedicava-se à composição da Missa Solene. O processo de elaboração das Sonatas arrastou-se por mais de um ano, e a terceira delas, esta, acabou por ser a última Sonata e última obra para piano do mestre. Como se soubesse que essa seria a despedida, Beethoven ultrapassou tudo o que se podia esperar de uma obra desse gênero e criou uma experiência que ainda hoje pode surpreender pelas inovações, pela ousadia das propostas, pelo manancial de emoções alcançado. É uma das Sonatas mais intrigantes e complexas do repertório pianístico.

A forma já é incomum: um conturbado primeiro movimento se faz seguir de uma seqüência de variações inusitadas e a obra termina, no segundo movimento mesmo, em absoluta paz e serenidade. Vale notar que o próprio Beethoven nunca a tocou, uma vez que nessa fase da vida — 5 anos antes de sua morte — ele já estava completa e irremediavelmente surdo. Talvez por isso possa levar o ouvinte a territórios nunca antes desvendados por uma peça para piano — e, talvez, nem mesmo depois...

I. Maestoso – Allegro con brio ed appassionato
(Majestosamente — Rápido, com brio e apaixonadamente) — cerca de 10 minutos
A abertura é impositiva, de cores escuras, implacável. Lembra o Beethoven do período heróico, das Sinfonias 3 e 5, de sonoridades abruptas e vencedoras. Perguntas são propostas, sem respostas, tal e qual as questões se anunciam no pensamento do homem velho, maduro e cansado, que não se preocupa mais em entender a vida, mas sim se propõe simplesmente a vivê-la, com garra e vontade. As perguntas vão se diluindo e a música toma, perto da conclusão do movimento, um ar sombrio e misterioso. 

II. Arietta: Adagio molto semplice cantabile
(Uma delicada ária: Com muita calma e simplicidade, e cantarolável) — de 15 a 20 minutos
Nunca Beethoven foi tão sereno. Um início calmo e doce. O tema evolui calmamente, ainda que se perceba certa frieza, certamente reflexo da impossibilidade do compositor poder ouvir a própria criação. Ao longo desse magnífico movimento serão experimentadas 6 Variações, que vão num crescendo a agitar-se, uma a uma, até que no clímax, a quarta variação, Beethoven atinge um ápice vertiginoso no qual seu olhar visionário antecipou a musicalidade que só surgiria dali a um século, uma vez que esta variação tem sabor de improviso e remete sem disfarces ao que os afro-americanos de New Orleans chamariam de jazz. As últimas variações, quinta e sexta, vão aquietando novamente a música, que vai voltando à sossegada atmosfera inicial, e a música vai diluindo-se em uma despedida transcendente, um adeus viceral do compositor a seu instrumento favorito, aquele que lhe deu fama no início da carreira como improvisador e virtuoso.

© RAFAEL FONSECA

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